sábado, 2 de maio de 2026

Coisas que me trazem sossego:

 Destralhar.

Já disse que é completamente surreal a velocidade do consumismo nos dias de hoje, os recursos que são precisos gastar para produzir algo que usamos uma vez e nunca mais ligamos? Eu sou cada vez mais fã de economia circular, esta velocidade e consumismo não é sustentável.

Se não usam, vendam e façam dinheiro, certamente alguém anda à procura desse mesmo item, usem nem que seja para vender o que está literalmente aos pontapés lá por casa, se não usas aquele vestido há 5 anos, desculpa Marta, não me parece que muita coisa vá mudar. Destralhar traz paz interior e retorno, por algo que fisicamente me estorva. O melhor dos dois mundos.

Tirem umas fotos do que têm, vários artigos para perceber o que conseguem despachar, fotos com boa qualidade, façam o download da app: https://www.vinted.pt/invite/quell01  (sim esta é a minha conta pessoal :) e siga, alguém pode ser feliz com aquilo que já não nos serve (ex namorados, apartamentos, roupa, é praticar o despreendimento). Agradeçam-me depois.

(Não é o meu caso, mas a mulher de um amigo meu é assim que paga as férias, mas convenhamos que eles têm gêmeos, ou seja tralha a dobrar, não sei se dá para competir :) )

[Cartas ao meu filho]

O dia em que nasceste foi o melhor e o pior da minha vida, foi um sentimento palpável, cru e lancinante naquele que devia ser de realização. Ouvi-te chorar no quarto ao lado e ali estava eu, com tensão a 4, valores de ferro a desafiar uma réstia de força. Ouvir-te a chorar de forma inconsolável e não poder ajudar-te foi o materializar desse sentimento, a incerteza de que sobreviveria ou não a tudo aquilo, o facto de deixarem o teu pai se despedir de mim e as vozes que ouvia ao fundo, os comentários das enfermeiras, foi tudo uma obscenidade. 

Se o parto foi indescritivelmente doloroso, o pós-parto foi uma brutalidade arrastada no tempo. Foi desafiador. Choravas dia e noite, com dor, as pessoas próximas só diziam "isto não é normal", o que é ótimo para acalmar o coração de uma mãe inexperiente e física e psicologicamente arrasada.

Não tivemos passeios ternurentos, estivemos trancados em casa por causa dos meses de frio, quando saíamos, fazíamo-lo com um temporizador mental pois sabíamos que tínhamos o tempo contado, que irias ter crises inconsoláveis de choro, tal como tiveste naquela noite, na tua primeira noite.

Em casa, andávamos como se fôssemos assaltantes, pé ante pé, com todo o cuidado para não te acordar, afinal adormecer-te era tão tão difícil, seguramente 45 minutos em que ou eu o pai te embalávamos até à exaustão, na tentativa de te aconchegar, te aclamar.

Quando fizeste um ano e oito meses começaste a dormir finalmente e foi uma luz que nos ajudou a seguir com os dias exigentes.
Foram tempos crus, em que um banho, uma refeição quente era uma extravagância. Sei que felizmente o tempo ameniza e no final restará apenas resquícios desta dificuldade.

Nunca te deitavas no meu colo tranquilo, havia sempre uma necessidade de levantar a cabeça, olhar em volta, o mundo chamava por ti desde o início, tinhas uma força no pescoço pouco natural, nunca baixavas a guarda, aproveitava quando dormias no meu peito, porque pelo menos aí tinha-te agarrado a mim. Enquanto cresceste foi sempre assim, nunca foste de sossegar no colo, a menos que ficasses doente. Eram maus momentos, mas bons porque te podia dar aquilo que sempre quis - colo.

Agora, maior e mais independente, és um desafio todos os dias. És obstinado e persistente. Ai filho, se conseguires usar isso para o bem, ninguém te conseguirá parar.
Os dias continuam duros, mas muito melhores, porque já conhecemos realmente dias duros antes.

Ontem, com 2 anos e 4 meses, consegui ir passear contigo e sentir a maternidade calma, com passeios, com partilha, ontem foi um dia bom, por causa disso. Não posso dizer que não invejo essa maternidade calma, aquela que nunca tivemos. Não posso dizer que não tenho pena, por nunca termos tido essa vivencia.

Desculpa não te conseguir dar um irmão, sinto mesmo que não consigo.
Desculpa nem sempre saber ser tua mãe. Há dias arrasadores, em que sinto que estou em modo de sobrevivência. A maternidade traz uma culpa terrível, lá está, é a melhor coisa e a melhor -  tudo ao mesmo tempo.

És um furacão e uma manhã de sol nas nossas vidas, um turbilhão de emoções que não deixa espaço para respirar, mas que nos trouxe a melhor visão - tu.

A tua acutilancia, a tua forma de conseguires as coisas, a tua incapacidade de desistir deixa-nos surpreendidos. Os teus abraços e beijos são um combustível precioso de que muito precisamos, porque é difícil, um dia saberás que ser pai é o papel mais difícil da vida, mas sem dúvida o melhor.
 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

[Bom ano!]

Alô! Ainda fico fascinada como há pessoas a passar por cá, mesmo não postando há tanto tempo. Não é porque não queira, porque ache que não faz muito sentido, apenas e só porque não consigo. Este espaço sempre me fez bem, sempre foi o meu espaço seguro, mas o tempo, ah.. esse bandido não me deixa vir cá.

Ora bem, nem sei sobre qual foi o último assunto que escrevi, neste último ano cabiam vários anos. Olhando para trás foi um ano bom, muito provavelmente dos melhores ano da minha vida e mesmo assim o ano mais stressante. Ter um filho (com agora dois anos) é avassalador. Não sei como são os outros bebés, mas o meu vira a casa do avesso, é traquina, é desafiador, não acata, não fica 2 minutos sentado a contemplar seja o que for. É um ritmo alucinante. Neste momento sou absolutamente incapaz de pensar em outro, embora fique triste com a ideia de que ele seja filho único. Sei que é uma decisão de vida, para nós, para ele, mas simplesmente não consigo fazer isso conosco, voltar a passar por tudo de novo, sei que teríamos forças, que as arranjaríamos algures, mas também que nos ia custar a alma, a paz e o sossego que já é manifestamente pouco. Não há nada melhor do que um bebé, mas o custo físico, emocional, financeiro de um ter um filho é avassalador.

Não sei se também contei aqui mas despedi-me. Que sensação inacreditável, nem sei explicar. Aquele sítio estava a levar pedaços de mim, cada dia em que acordava para ir trabalhar era horrível, perdia vida aos poucos. Poder sair, libertar-me daquele fardo foi um sonho concretizado. Mudei de trabalho, para uma área nova, para a instabilidade e insegurança de um contrato precário, mas sinto que foi o melhor que fiz, que o caminho não era por ali.

 Sinto que ainda tenho coisas por processar sobre o ano que passou, sobre o ano que vem e não sei explicar, não sei como pôr cá fora, é nestas coisas que o log que ajudava imenso, no sentido de me ajudar a fechar para balanços, de fechar assuntos, de processar as coisas mais separadamente. 

Não sei o que reserva o futuro, mas sinto que o justo é resolver este turbilhão de emoções e seguir caminho sem olhar para trás. Que seja um bom ano, que tenhamos saúde e força para seguir, bom ano!

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